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A Passeata Contra a Guitarra Elétrica: a História de 1967

Igor Silva Anholeto Por Igor Silva Anholeto
Cartaz ilustrado da Passeata Contra a Guitarra Elétrica de 1967, com uma multidão em marcha
Neste artigo

No fim da tarde de 17 de julho de 1967, uma cena difícil de imaginar hoje tomou as ruas do centro de São Paulo. Do Largo São Francisco até o Teatro Paramount, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, marchava um cortejo de artistas — não contra a ditadura militar que governava o país havia três anos, não contra a censura, não contra a fome. Eles marchavam contra um instrumento musical: a guitarra elétrica.

À frente ia Elis Regina, aos 22 anos já a maior voz do rádio e da televisão brasileira. Atrás dela, uma faixa dizia “Frente Única da Música Popular Brasileira”. Ao lado, nomes como Jair Rodrigues, Edu Lobo e — num detalhe que o tempo transformaria em piada cósmica — Gilberto Gil, o mesmo que meses depois empunharia uma guitarra elétrica para inventar a Tropicália. É um dos episódios mais estranhos, reveladores e mal compreendidos da história da música brasileira. Este é o relato completo do que aconteceu, por quê, e o que ele ainda tem a dizer sobre a guitarra que você quer aprender a tocar.

Resposta rápida

A Passeata Contra a Guitarra Elétrica (ou Marcha contra a Guitarra Elétrica) foi um protesto realizado em 17 de julho de 1967, em São Paulo, liderado por Elis Regina e organizado pela autointitulada Frente Única da Música Popular Brasileira. Sob o lema “Defender o que é nosso”, dezenas de artistas da MPB marcharam contra o que viam como a “americanização” da música brasileira, simbolizada pela guitarra elétrica da Jovem Guarda. O episódio ficou marcado pela ironia: Gilberto Gil participou e, poucos meses depois, lançou a Tropicália usando justamente a guitarra elétrica.

O que foi a Passeata Contra a Guitarra Elétrica

A passeata foi uma manifestação pública de músicos ligados à Música Popular Brasileira (MPB) contra o uso crescente da guitarra elétrica na música nacional. O trajeto foi curto e simbólico: partiu do Largo São Francisco, no coração jurídico e histórico de São Paulo, e terminou no Teatro Paramount — hoje reformado, mas na época um dos principais palcos da cidade.

Os manifestantes carregavam uma grande faixa com a inscrição “Frente Única da Música Popular Brasileira” e cantavam palavras de ordem em defesa da canção nacional. O lema que resumia o movimento era direto: “Defender o que é nosso”. Para seus organizadores, o “nosso” era o violão, o samba, a bossa nova, a canção de raiz — e a guitarra elétrica, amplificada e barulhenta, representava tudo o que ameaçava essa tradição: o rock, o consumismo, a cultura de massa importada dos Estados Unidos.

Não era um protesto qualquer. Reunia parte da elite artística do país num momento em que a música popular fervilhava de criatividade e disputa. E, visto de hoje, escancara um paradoxo que os próprios participantes levariam pouco tempo para admitir.

Quem participou (e quem ficou de fora)

À frente da passeata estava Elis Regina, então no auge da fama como apresentadora, ao lado de Jair Rodrigues, do programa O Fino da Bossa, da TV Record. Entre os artistas que marcharam ou apoiaram a Frente Única aparecem, segundo os registros da época:

  • Elis Regina — líder e rosto do movimento
  • Jair Rodrigues — parceiro de Elis no Fino da Bossa
  • Edu Lobo — um dos grandes compositores da nova canção
  • Geraldo Vandré — símbolo da canção de protesto engajada
  • Zé Keti — sambista, voz do morro carioca
  • MPB-4 — o grupo vocal então em ascensão
  • Gilberto Gil — a presença que a história tornaria irônica

Estima-se que dezenas de artistas e centenas de pessoas tenham participado, num evento que teve tanto de manifestação sincera quanto de ação orquestrada de marketing cultural — voltaremos a isso.

Igualmente importante é quem não marchou. Caetano Veloso e Nara Leão assistiram à passeata de longe, do alto de um prédio, com desconforto. Caetano registraria anos depois, em seu livro Verdade Tropical, o mal-estar diante do que via: um movimento que, sob a bandeira da defesa da cultura, tinha um tom reacionário, quase autoritário, de quem quer proibir em vez de criar. Nara Leão, uma das musas da bossa nova, também se colocou entre os críticos do purismo nacionalista — recusando a ideia de que a música brasileira precisasse de muros para se proteger.

O contexto: por que uma guitarra virou inimiga

Para entender por que gente talentosa marcharia contra um instrumento, é preciso reconstruir o Brasil de 1967 — e, principalmente, a guerra que se travava dentro da televisão.

A guerra de audiência: Fino da Bossa x Jovem Guarda

No centro de tudo estava uma disputa por audiência na TV Record. De um lado, O Fino da Bossa (1965–1967), comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, representava a MPB sofisticada, herdeira da bossa nova e da canção de protesto. De outro, a Jovem Guarda (1965–1968), com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, era o rock e o iê-iê-iê brasileiro — jovem, comercial, elétrico e vendendo discos como nunca.

A Jovem Guarda crescia; o Fino da Bossa perdia espaço. A guitarra elétrica, instrumento-símbolo de Roberto Carlos e companhia, virou o alvo concreto de uma ansiedade maior. Atacar a guitarra era, na prática, atacar o sucesso comercial de um rival. Muitos historiadores leem a passeata menos como um manifesto estético espontâneo e mais como um lance calculado numa disputa de mercado e de projeto de TV.

A guitarra como símbolo do “imperialismo cultural”

Havia, porém, uma camada mais profunda e sincera. O Brasil vivia sob a ditadura militar instaurada pelo golpe de 1964. O nacionalismo — de esquerda e de direita — estava no ar, e a cultura era um campo de batalha. Nesse clima, o violão acústico simbolizava a autenticidade brasileira, a raiz, “o que é nosso”. Já a guitarra elétrica, amplificada e vinda dos Estados Unidos, era lida como cavalo de Troia do imperialismo cultural americano, da alienação consumista, da descaracterização da identidade nacional.

Como resumiu uma análise da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), talvez por uma questão de identidade cultural mal resolvida ao longo da modernização do país, os brasileiros sentiram a necessidade de eleger símbolos que os representassem — e a guitarra elétrica acabou transformada em bode expiatório de angústias muito maiores do que ela mesma.

A grande ironia: Gilberto Gil e a Tropicália

Aqui a história dá sua reviravolta mais espetacular. Menos de três meses depois da passeata, em outubro de 1967, o mesmo Teatro Paramount e os palcos da TV Record receberam o III Festival da Record — e o Brasil assistiu ao nascimento da Tropicália, movimento que faria exatamente o oposto do que a marcha pregava.

No festival, Gilberto Gil apresentou “Domingo no Parque” acompanhado d’Os Mutantes, com arranjo de Rogério Duprat e guitarra elétrica no centro do som. Caetano Veloso defendeu “Alegria, Alegria” ao lado dos argentinos do grupo Beat Boys — de novo, guitarra elétrica, roupa de rock, atitude pop. O público dividido entre vaias e delírio assistia a uma revolução: a guitarra que fora expulsa das ruas em julho voltava consagrada aos palcos em outubro.

O Tropicalismo não negava a guitarra elétrica nem a cultura estrangeira. Fazia o contrário: devorava essas influências e as transformava em algo novo e brasileiro — a velha ideia da “antropofagia” cultural de Oswald de Andrade, retomada como método. Beatles e baião, guitarra e berimbau, pop internacional e samba podiam coexistir. Em vez de erguer muros, a Tropicália abria janelas.

E o mais eloquente: os próprios artistas que marcharam contra a guitarra passaram a usá-la. Gilberto Gil construiu boa parte de sua obra com ela. Elis Regina, poucos anos depois, gravava discos recheados de arranjos elétricos. O instrumento que dezenas de músicos tentaram barrar acabou absorvido, sem resistência, pela mesma MPB que o havia rejeitado.

O paradoxo — e o que ele revela

Vista com sessenta anos de distância, a passeata é um retrato de um erro compreensível: confundir o instrumento com a mensagem. A guitarra elétrica não era americana nem brasileira — era, como qualquer ferramenta, o que os músicos fizessem dela. Barrá-la em nome da identidade nacional foi, no fim, um gesto de insegurança cultural, não de força.

Há ainda a leitura mais dura, defendida por vários críticos: a de que o movimento embrulhou uma disputa de mercado (audiência de TV, venda de discos) no papel nobre do nacionalismo. Combater a guitarra era combater a Jovem Guarda, que vendia mais. O discurso da pureza escondia, em parte, o incômodo com a concorrência.

O tempo deu seu veredicto sem apelação. A guitarra elétrica não só ficou — tornou-se onipresente na música brasileira, do rock nacional ao sertanejo, do gospel ao funk. E a MPB purista, que tentou proteger-se fechando-se, é hoje frequentemente lembrada como o lado que ficou para trás naquela discussão. A tentativa de barrar a inovação enfraqueceu, e não fortaleceu, a tradição que dizia defender.

Linha do tempo: a guitarra elétrica no Brasil dos anos 60

Ano Acontecimento
1964 Golpe militar; o nacionalismo cultural ganha força nos dois campos políticos
1965 Estreiam, na TV Record, O Fino da Bossa (Elis/Jair) e a Jovem Guarda (Roberto Carlos)
17 jul 1967 Passeata Contra a Guitarra Elétrica, de Elis Regina, em São Paulo
out 1967 III Festival da Record: Gil com Os Mutantes e Caetano com os Beat Boys anunciam a Tropicália
1968 Auge do Tropicalismo; em dezembro, o AI-5 endurece a ditadura e persegue seus artistas
Anos 70 Elis, Gil e a MPB inteira incorporam a guitarra elétrica sem controvérsia

O que a passeata ensina a quem quer tocar guitarra hoje

Se você chegou até aqui pesquisando a história da guitarra, vale conectar os pontos. O instrumento que dividiu o Brasil em 1967 é o mesmo que hoje qualquer pessoa pode aprender — sem carga ideológica, sem passeata contrária. A guitarra elétrica venceu a discussão simplesmente por ser boa demais para ser ignorada.

Para entender de onde ela veio, veja quem inventou a guitarra elétrica e a história por trás dos primeiros modelos. Se você está pensando em começar, nosso guia completo da guitarra elétrica reúne tudo sobre escolher o instrumento certo, e a lista das melhores guitarras para iniciantes mostra por onde partir. Para conhecer os formatos que definiram o som brasileiro e mundial, vale ler sobre os tipos de guitarra elétrica e a eterna rivalidade Fender vs Gibson — que, no fundo, é a versão instrumental da mesma pergunta que movia 1967: qual som é o “certo”?

A resposta, hoje sabemos, é: todos. Pegue uma guitarra, afine e toque o que quiser.

Perguntas frequentes

O que foi a passeata contra a guitarra elétrica?
Foi um protesto realizado em 17 de julho de 1967, em São Paulo, no qual dezenas de artistas da Música Popular Brasileira (MPB), liderados por Elis Regina, marcharam contra o uso da guitarra elétrica na música nacional. Sob o lema 'Defender o que é nosso', o movimento via a guitarra elétrica como símbolo da 'americanização' e da descaracterização da cultura brasileira.
Quem liderou e organizou a marcha contra a guitarra elétrica?
A líder e rosto do movimento foi a cantora Elis Regina, então com 22 anos e no auge da fama. A organização se deu sob a bandeira da autointitulada 'Frente Única da Música Popular Brasileira'. Participaram nomes como Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Zé Keti, o grupo MPB-4 e Gilberto Gil.
Por que os músicos eram contra a guitarra elétrica?
Por dois motivos que se somavam. O primeiro era simbólico e nacionalista: no Brasil sob a ditadura militar, a guitarra elétrica, vinda dos Estados Unidos, era vista como instrumento do 'imperialismo cultural' americano, opondo-se ao violão como símbolo da autenticidade brasileira. O segundo era de mercado: a Jovem Guarda, movimento de rock com Roberto Carlos, crescia em audiência e vendas, ameaçando o espaço da MPB na TV Record.
Gilberto Gil participou da passeata contra a guitarra elétrica?
Sim, e essa é a grande ironia da história. Gilberto Gil esteve na passeata em julho de 1967. Menos de três meses depois, em outubro, ele apresentou 'Domingo no Parque' acompanhado da banda Os Mutantes, com guitarra elétrica em destaque, num dos marcos do nascimento da Tropicália — movimento que abraçava justamente aquilo que a marcha rejeitava.
Quando e onde aconteceu a marcha contra a guitarra elétrica?
Aconteceu em 17 de julho de 1967, na cidade de São Paulo. O trajeto partiu do Largo São Francisco, no centro histórico, e terminou no Teatro Paramount, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio.
Caetano Veloso participou da passeata?
Não. Caetano Veloso e Nara Leão não marcharam — assistiram ao cortejo à distância, do alto de um prédio, com desconforto. Em seu livro 'Verdade Tropical', Caetano relatou o mal-estar diante do que considerou um gesto reacionário. Ambos estavam entre os que viam com desconfiança o purismo nacionalista do movimento.
A passeata contra a guitarra elétrica deu certo?
Não. O movimento fracassou de forma rápida e completa. Poucos meses depois, a Tropicália consagrou a guitarra elétrica nos festivais, e nos anos seguintes os próprios artistas que haviam marchado — incluindo Gil e Elis Regina — passaram a usar o instrumento em seus discos. A guitarra elétrica tornou-se onipresente na música brasileira.
Qual a relação da passeata com a Tropicália?
A passeata (julho de 1967) e a Tropicália (a partir de outubro de 1967) foram lados opostos da mesma discussão. Enquanto a marcha queria 'proteger' a música brasileira barrando a influência estrangeira, a Tropicália, com Caetano Veloso e Gilberto Gil, propunha o contrário: 'devorar' influências internacionais — do rock ao pop — e transformá-las em algo novo e brasileiro, na lógica da antropofagia cultural de Oswald de Andrade.

Fontes e leitura complementar

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